Curitiba tem uma reputação que a precede. A cidade é frequentemente citada como modelo de planejamento urbano, com seu sistema de transporte coletivo integrado, suas ciclovias e seus parques. Delegações de outras cidades brasileiras e de países em desenvolvimento visitam regularmente a capital paranaense para aprender com sua experiência.

Mas por trás dessa narrativa de sucesso, os dados revelam uma cidade com contrastes profundos. A diferença na qualidade de vida entre os bairros mais ricos — Batel, Água Verde, Bigorrilho — e as periferias do sul e do leste da cidade é uma das maiores entre as capitais brasileiras.

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) mapeou indicadores socioeconômicos em nível de bairro. Os resultados mostram que a renda per capita no Batel é 11 vezes maior do que no Tatuquara. A taxa de mortalidade infantil no Cajuru é três vezes maior do que no Ecoville. O tempo médio de deslocamento para o trabalho no Campo de Santana é 40 minutos maior do que no Centro Cívico.

"A cidade modelo foi construída para uma parte da cidade", diz um urbanista que participou da elaboração do estudo. "O planejamento urbano de Curitiba foi muito bom para quem já tinha condições. Para quem estava na periferia, a história é outra."

O sistema de transporte integrado, talvez o elemento mais celebrado do modelo curitibano, é um exemplo dessa dualidade. Os corredores de ônibus expressos conectam eficientemente os bairros ao longo dos eixos estruturais, mas as periferias mais distantes dependem de linhas alimentadoras que têm frequência menor e condições piores. "Para quem mora no Tatuquara e trabalha no Centro, a viagem pode levar duas horas", diz um pesquisador de mobilidade urbana.

A questão habitacional é outro ponto crítico. Curitiba tem um déficit habitacional estimado em 60 mil unidades, concentrado nas faixas de renda mais baixa. A pressão imobiliária nos bairros mais valorizados empurra as famílias de menor renda cada vez mais para as periferias, onde a infraestrutura é precária.

A prefeitura reconhece os problemas e tem programas voltados para as periferias, incluindo o Programa Habitar Curitiba e o Plano de Regularização Fundiária. Mas especialistas apontam que o ritmo das intervenções é insuficiente diante da escala do desafio.